'Gêmeas' questionam ciência da fertilidade sob olhar feminista e com horror

da CAMPEONATO BRASILEIRO DE FUTEBOL FEMININO A-1: “Gêmeas – Mórbida Semelhança” (“Dead Ringers”), disponível na Prime Video, traz uma releitura do filme de mesmo nome dirigido por David Cronenberg que, por sua vez, foi baseado no livro “Twins: Dead Ringers” de Bari Wood e Jack Geasland. Na minissérie desenvolvida por Alice Birch (corroteirista de “O Milagre” e roteirista de “Lady Macbeth”), os gêmeos Elliot e Beverly Mantle outrora interpretados por Jeremy Irons se tornam uma versão feminina revisitada por Rachel Weisz.

da brasil bingo: Tal como na adaptação cinematográfica “Psicopata Americano”, que foi dirigida por uma mulher, Mary Harron, a releitura feminina e feminista de Alice Birch também faz muita diferença neste caso. Aliás, dizer que a minissérie é um híbrido de “Psicopata Americano” com “Gêmeos – Mórbida Semelhança” não seria um exagero, já que ela aborda elementos do mundo corporativo e de suas práticas de investimento.

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Em vez da icônica cena da troca de cartões, aqui é a dinâmica entre as gêmeas e a investidora Rebecca Parker (Jennifer Ehle) que se destaca. Para poder abrir sua clínica de fertilidade, as irmãs precisam conquistar a herdeira de uma empresa farmacêutica responsável por uma epidemia de dependentes químicos —semelhanças com a crise de opioides americana não são mera coincidência.

Se Beverly incorpora a gêmea boa e que almeja uma revolução na maneira como mulheres se tornam mães e experienciam o parto, Elliot está mais interessada em continuar suas pesquisas em gestação extrauterina.

O fato de haver fetos de carneiro expostos em tanques na clínica é uma clara alusão a uma pesquisa real e que foi bem-sucedida no desenvolvimento dos animais em ambiente sintético.

Acontece que Rebecca não é hipócrita: ela sabe muito bem dos problemas da origem de sua fortuna, mas ela só está “jogando o jogo”. Em outras palavras, ela não se importa se Beverly quer fazer um centro de fertilidade com parto “humanizado”, o importante é lucrar. Tudo é contornável quando se tem dinheiro e influência.

Em um jantar no qual as gêmeas precisam, finalmente, vender seu projeto, elas são confrontadas com outras amigas ricas de Rebecca ou, mais especificamente, versões do feminismo liberal e do corporativismo tecnológico.

Enquanto diferentes crianças loiras brincam em uma outra ala com suas babás, na mesa de jantar sentam:

Uma paródia de Gwyneth PaltrowUma paródia do asiático inovador (mas que só consegue se comunicar com a ajuda de um tradutor)Uma paródia feminina do empresário excêntrico que tem um chip implantado na mão e se autoproclama transumanista e biohackerE um “homem feministo” que está tão ciente das questões femininas que pede desculpa por ser homem e carrega absorventes no bolso

Apesar de a minissérie também se concentrar no triângulo formado pela inserção da atriz Genevieve Cotard (Britne Oldford), em um relacionamento com Beverly, há muitas outras histórias e temas sendo desenvolvidos paralelamente.

A releitura de Alice Birch insere o elemento feminino (e feminista) no body horror de Cronenberg ao exibir cenas explícitas de parto, então explorando o subgênero do pregnancy horror.

Assim como no filme “Antibirth”, protagonizado por Natasha Lyonne, aqui gravidez também é algo essencialmente assustador e traumatizante. Isso porque Birch explora justamente o que há de mais real e horrível na maternidade: as dores físicas e psíquicas de se tornar mãe.

Em vez de gritos causados por um assassino que persegue a mocinha, são os gritos das contrações, do aborto espontâneo e do parto que preenchem os ouvidos de horror.

Em vez de o sangue escorrer dos corpos das vítimas porque algum vilão as esfaqueou, é durante o parto natural ou na incisão da cesariana que o líquido jorra abundantemente.

Sangue e dor fazem parte da rotina das irmãs Mantle, ao ponto de que, muitas vezes, até se esquecem de se limpar.

Enquanto o recente lançamento de Ari Aster, “Beau Tem Medo”, se torna mais um título da A24 que trata de questões maternais (ou “mommy issues”), “Gêmeas – Mórbida Semelhança” traz o mesmo assunto, mas com uma perspectiva muito mais interessante: a da mulher.

Com diálogos escritos com precisão, a minissérie mostra as diferentes facetas do se tornar mãe e ser mulher sem estabelecer um posicionamento moral.

Isto porque a falta de escrúpulos de Elliot é sempre apontada pela ética de Beverly, ao mesmo tempo em que esse ideal de bondade é posto em xeque quando questionado se não se trata de covardia e hipocrisia.

A minissérie remonta à origem da ginecologia quando apresenta os herdeiros de James Marion Sims, considerado o pai da ginecologia moderna, título conquistado a partir dos experimentos que ele performou em uma mulher escravizada de 17 anos e que perdeu seu filho após três dias de trabalho de parto. É dito que o médico ainda fez dezenas de procedimentos cirúrgicos na garota, sem o uso de anestesia, apesar de a técnica já estar disponível à sua época.

Assim como discuti anteriormente, a minissérie “Gêmeas – Mórbida Semelhança” aborda o dilema ético da inovação científica e tecnológica, isto é, como conciliar as vítimas e o sofrimento causado durante as pesquisas com as possíveis descobertas que poderão beneficiar a humanidade.

Enquanto Beverly é assombrada pela garota escravizada, em sua clínica, uma mulher se prontifica em participar de qualquer experimento, desde que ela possa finalmente se tornar mãe.

É uma conta difícil de fechar, mas Alice Birch consegue arrematar o tema com o episódio final da minissérie.

Assim como outros títulos no mesmo formato, há abertura para uma segunda temporada, mas os seis episódios de 59 minutos conseguem comunicar muito bem os dilemas éticos da maternidade e da ciência em torno da fertilidade.

Questões transgênero não são levantadas aqui, o que talvez nos dê pistas do que poderia vir em uma nova temporada.