Desafio no TikTok promete clonar uma pessoa usando sua saliva. Faz sentido?

da casino 1995: Somando milhões de seguidores no TikTok, YouTube e Instagram, o influencer e ator Coby Persin possui um histórico de pegadinhas envolvendo assuntos polêmicos. Mais recentemente, em seu novo “experimento social” no TikTok, ele convida pessoas a lamberem algum objeto em um local público para que ele colete a saliva e possa supostamente clonar o indivíduo.

da como jogar blackjack: “Coincidentemente”, a maioria dos clones advém de mulheres, sendo que uma das mais recentes escolhidas por Coby o fez viajar para o Brasil.

Colunistas do UOL

Apesar de usar referenciais científicos —uso de cotonete, armazenamento em tubo, kits de DNA vendidos por serviços já disponíveis—, Coby não está, de fato, clonando ninguém.

Ainda assim, dezenas de pessoas estão causando horror em audiências mais sensíveis ao quesito higiênico da trend, sem necessariamente saber que, tecnicamente, a saliva é mesmo um material usado para sequenciamento genético.

Mais acessível hoje, esses testes oferecidos por empresas estrangeiras como 23andMe ou a nacional Genera já são capazes de mapear sua ancestralidade genética e identificar seu sexo biológico, cor dos olhos e outras características físicas.

Em 2013, a artista e biohacker amadora Heather Dewey-Hagborg casualmente resolveu pegar uma bituca de cigarro descartada debaixo de uma passarela no Brooklyn, Nova York.

Depois de anos investigando o material genético deixado na bituca, Heather descobriu que a fumante era uma mulher de olhos castanhos, vinda de família italiana ou talvez do sul de Portugal, com um nariz um pouco menor do que a média e com poucas chances de desenvolver obesidade.

Com essas informações, Heather criou um rosto digitalmente e o imprimiu usando uma impressora 3D, chegando a este resultado:

Com isso, a artista começou a coletar outras amostras além de bitucas de cigarro, incluindo fios de cabelo e chicletes mascados. Iniciou assim o projeto que chamou de Stranger Visions.

A obra gira em torno das questões de vigilância genética e tem intersecções com políticas raciais, já que o mesmo material genético também não pode identificar as ancestralidades de uma pessoa, bem como o seu sexo biológico.

Para abordar este último ponto, Heather fez dois projetos com Chelsea Manning, denunciante e ativista americana que foi presa e processada por ter acessado e divulgado informações militares sigilosas e que deram origem ao escândalo “Cablegate”. Manning é uma mulher trans, o que significa que a aproximação imagética que poderia ser realizada pelo seu DNA seria ainda menos precisa.

Em 2017, Heather realizou a exposição “Probably Chelsea” contando com trinta máscaras que resultaram de uma análise algorítmica feita após o sequenciamento do DNA da ativista, enquanto ela ainda estava presa.

Se observadas, as máscaras possuem uma grande variedade de interpretações que até chegam a oferecer versões asiáticas de Chelsea, então apelando para a questão do determinismo genético e de vigilância que pode ser estendida ao nível genético.

Na obra “Strange Visions”, Heather mostra justamente como o sequenciamento genético para perfilamento ancestral pode ser usado como uma legitimação para questões raciais, assim tornando-a algo estritamente biológico e não mais cultural.

Apesar de parecer algo distante, em 2018, o Canadá usou testes de DNA para poder checar a veracidade da origem de imigrantes e então alimentar uma plataforma de dados para investigação criminal.

Por um outro lado, essa mesma estratégia foi utilizada em um programa de TV para mostrar a um supremacista branco que ele possuía 14% de ancestralidade africana em seu DNA.

Anteriormente, no TAB, cheguei a escrever junto com a Laura Del Vecchio a respeito de um projeto que o anterior ministro da Justiça Sérgio Moro queria implementar no Brasil, que tinha como objetivo fazer o perfilamento genético de presidiários.

Ainda que ultrajantes, esses três exemplos envolvem a ciência do indivíduo a ser perfilado, ainda que possa não incluir seu consentimento.

Cenários parecidos ocorrem quando empresas que vendem kit de sequenciamento genético revendem dados genéticos de seus clientes para outras empresas e governos. Enquanto algumas plataformas deixam isso comunicado, nem sempre as pessoas leem as “linhas finas”.

A questão é que, se Heather conseguiu fazer um perfilamento similar apenas por coletar lixo nas ruas de Nova York, qualquer um pode ter seu DNA sequenciado sem consentimento ou ciência disso.

Mas apesar de cada pessoa ter o seu DNA único, outros artistas como Alicja Kwade buscaram provar que não é assim tão definitivo.

Em 2021, Alicja imprimiu seu genoma completo em 259.025 folhas de papel A4 e expôs na instalação “Selbstportrait”. Enquanto algumas folhas foram penduradas do teto ao chão, outras foram armazenadas em caixas de cobre. Visitantes podiam, inclusive, levar uma página do sequenciamento para casa.

O ponto foi deixar em negrito as partes que eram exclusivas a Alicja e mostrar que 99,9% do DNA humano é basicamente igual para todo mundo.

Mais recentemente, a artista transformou essa instalação em uma NFT que inclui um arquivo PDF com 25 páginas preenchidas com 300 mil letras advindas de seu DNA pelo preço de 0.1 ETH (algo como US$ 300).

Ou seja, para algumas pessoas, talvez seja até interessante vender seus dados genéticos, assim como “vendemos” dados pessoais para plataformas de rede social ou mecanismos de busca.

O que quero dizer é que esse tipo de “vazamento de informação genética” já está acontecendo agora, querendo ou não. A diferença está em nos conscientizarmos da possibilidade e termos opções para nos proteger e responder a esses eventos.

O influencer Coby Persin estar coletando material genético em lugares públicos e ser desafiado a coletar o material de algumas pessoas específicas mostra que, mesmo dentro de um contexto não científico, o tópico já está sendo levantado.

O desafio é fazer com que essa audiência se conscientize da ciência por trás desse desafio de TikTok.